Banana Fish
(ou como algo feito há 40 anos ainda cai tão bem)
Em 2024, me propus a reler os 10 volumes de Banana Fish que tenho em casa1. Gosto de fazer isso com os quadrinhos da minha estante, até para saber se não é hora de dizer adeus a alguns deles e liberar mais espaço (nem todas as obras que temos “falam com a gente” por toda a vida, certo?). Agorinha nos primeiros dias de janeiro, finalizei a leitura da última parte da história e pensei em alguns pontos que fazem com que ainda seja possível apreciar esse mangá tão antigo em 2025.
Antes de mais nada, um resuminho: Ash Lynx é um jovem delinquente, mas muito inteligente e com bastante potencial, que acaba tendo uma vida extremamente difícil desde criança, o que o leva a viver como um líder de gangue em Nova Iorque. Ele cuida do irmão mais velho, um veterano da Guerra do Vietnã2 que ficou incapacitado após o conflito, e todo o enredo começa a partir do mistério que circunda a situação do ex-combatente.
A história é FORTE e CHEIA de gatilhos. Não recomendo para quem tem questões com estupro/pedofilia.
O tempo
Banana Fish é um mangá shoujo3 que começou a ser publicado em 1985, com o final em 1994, ou seja, a autora Akimi Yoshida trabalhou na obra por quase 10 anos. Embora o traço do Ash em específico tenha mudado um pouco ao longo do tempo, a história foi bem linear, sem grandes surpresas, e refletiu bastante o imaginário dos Estados Unidos na década de 1980, que o mundo todo via em filmes, em especial os do gênero policial.
Considerando que, para nós aqui do futuro, o mangá tem seu ambiente muito datado, o que o torna atemporal e relevante até hoje são seus elementos mais chocantes, ou seja, o modo como a autora conduz a violência, que infelizmente ainda soa bem atual. A brutalidade nas páginas não se resume ao fato de que a história gira em torno do líder juvenil de uma gangue; ela está em todo lugar, na forma de brigas por território/poder, assassinatos de personagens, conflitos e interesses em países em desenvolvimento e pedofilia/estupro, e todas essas coisas ainda fazem parte da nossa realidade.
Vivemos no Brasil, um país que ainda possui alguns dos mais altos índices de violência do mundo4, portanto, não tem como nenhum leitor se achar tão distante do que acontece em Banana Fish, mesmo exatos 40 anos após o início de sua publicação no Japão. Essa verossimilhança nos deixa muito à vontade, mas o motivo para tal é bem desesperador.
O título (e os EUA)
O título Banana Fish parece algo tolo aos ouvidos de nós, pessoas do Brasil, mas a autora era/é muito aficionada pela cultura dos EUA e isso ficou muito evidente desde a primeira página até o final da publicação (a última cena do mangá se passa na Biblioteca Pública de Nova Iorque). O próprio título da obra vem de A Perfect Day for Bananafish5, do autor americano J. D. Salinger. Outros pontos americanizados que podemos identificar prontamente são os policiais da trama, todos desenhados e com atitudes que qualquer pessoa que tenha assistido a um filme dos yankees com essa temática nos anos 1980 e 1990 vai identificar, desde o café na delegacia até as cagadas feitas ao longo da história. Chinatown, o metrô capenga de Nova Iorque, “a máfia chinesa” e a “máfia italiana”, o sistema prisional, militares, entre outros, são figuras que, em um mundo como o nosso, que é bombardeado com incansáveis referências dos Estados Unidos, ficam facilmente reconhecíveis em qualquer mídia e trazem essa proximidade entre leitores de diversos países.
A crítica (aos EUA)
Yoshida parece amar os Estados Unidos, mas também sabe de todos os pontos negativos da nação e faz questão de demonstrá-los. Suas personagens japonesas sempre comentam o quão perigoso é o lugar em que estão, e sobre como não entendem como lá as pessoas andam sempre armadas, enquanto no Japão isso não ocorre (a autora evidentemente mostra o seu país como um lugar muito maravilhoso e quase sem defeitos), entre outras pequenas depreciações. Isso não apenas expõe o ambiente da trama de forma mais verossímil, mas também cria uma relação binária entre Ash, o personagem principal, e Eiji, seu contraponto e complemento: enquanto o americano é bruto, extremamente inteligente e tem um olhar cínico para as coisas, o japonês é delicado, ingênuo e olha tudo com mais gentileza e esperteza. Um “precisa do outro” e é essa coexistência que torna os volumes suportáveis para Ash, cuja vida já está no limite há muito tempo. Eiji chega a querer que Ash vá com ele para o Japão, assim ele poderá “viver em paz”.
Desafiando convenções da demografia
Muitas pessoas pensam em shoujos, no geral, de uma forma que não parece congruente com o traço e a storyline de Banana Fish.
Yoshida foi pioneira e criou uma trama que se afasta de muitos estereótipos da demografia, com uma obra que até hoje pega muitos leitores desavisados, em especial homens, que não compreendem que é possível ter uma variedade grande de histórias dentro da demografia. Outro ponto é que quase não há personagens femininas no enredo, com Jessica sendo a única mulher relevante na trama (ainda há a irmã de Shorter, esta bem apagada). Todo o foco narrativo fica em Ash e Eiji, dois rapazes, e tantos os vilões quanto os mocinhos são todos homens. Se alguém pensa que ela fez isso para se aproximar de um público masculino, a própria autora nega, dizendo que nunca considerou o que rapazes pensariam da obra ao desenhá-la, ou seja, sempre teve em mente o público feminino, para o qual desenha.6
O fato de Banana Fish ser uma história sobre gangues, drogas, violência, guerras e interesses políticos em um escopo de relações internacionais, e ainda assim ser uma história voltada para meninas é o que torna tudo especial, uma vez que demonstra que o público feminino se interessa por uma míriade de coisas. Ironicamente, o sucesso do mangá, mesmo quase sem personagens mulheres, de certa forma humanizou todas as garotas, meninas e mulheres leitoras, e é triste pensar que 4 décadas depois ainda é necessário reforçar que podemos nos interessar pelo que quisermos, e que isso não deveria ser algo excepcional.
O outro lado da marginalidade
Ash ser um delinquente loiro, bonito e com inteligência acima de média pode fazer parecer com que seja fácil defender suas ações ou ser manipulado por elas. No entanto, a autora mostra um lado humano atribuído a quem teve uma vida marginalizada, é empurrado para situações de crime e não consegue sair do lugar em que está. Até mesmo homens de fato adultos que entendem a complexidade e a gravidade do que se passa com Ash se comprometem com a situação e tentam ajudar. Em vez de uma limitação que coloca criminosos contra “cidadãos de bem”, ela demonstra a tridimensionalidade de todas as pessoas: o protagonista vive nas ruas e não é exatamente uma pessoa ruim, enquanto militares e homens de negócios de reputação ilibada estão envolvidos em atrocidades inimagináveis.
A vida pregressa de Ash é melhor explorada em alguns capítulos especiais de seu passado, mostrando como se envolveu com um líder de máfia, foi vendido e estuprado continuamente por quase uma década e viu, nas ruas, a saída do mundo que o esperava quando adulto.7
Homens que se amam
Histórias de amor entre homens possuem um contexto histórico interessante no Japão, em particular aquelas feitas por mulheres para meninas/mulheres. Vale a pena pesquisar sobre. O fato de este ser um shoujo sem foco em um relacionamento heterossexual não era uma novidade quando a história foi publicada, e embora o desenvolvimento de Ash e Eiji como casal talvez não seja exatamente o que queremos, é muito bom sair da lógica heterocompulsória dos personagens principais em uma leitura. No entanto, há muita violência e problemática com alguns dos outros personagens homens. O próprio Ash foi vítima de um grande esquema de pedofilia. O amor e o respeito, como deveriam ser, só acontecem com o duo Ash+Eiji, e sem aproximação sexual (dá para tecer muitas análises sobre isso). A leitura de todos os volumes é bem pesada nesse quesito.
Após todos esses pontos, digo que nem tudo são rosas, é claro. A história possui seus pontos negativos, mas o foco aqui foi dar ênfase nas coisas boas e atemporais da obra. Não só a sua relevância histórica, mas o próprio Ash, que é um personagem que teria sido muito mais interessante em uma abordagem mais madura, me fazem querer revisitar Banana Fish com certa frequência. Embora seja um enredo forte e com muitos gatilhos, tenho certeza de que agradará a muitas pessoas. De diferentes demografias.
Bônus
Boys love?
Esse é um assunto que sempre dá pano para manga: afinal, Banana Fish é mesmo shoujo, em vez de um Boys Love, já que Ash e Eiji são apaixonados um pelo outro? Pois é, aqui caímos novamente na maior confusão que as pessoas fazem: a demografia. A demografia é o shoujo, voltada para meninas, e dentro dela autores podem fazer o que quiser. Recomendo este texto sobre BL do pessoal do Blyme: https://blyme-yaoi.com/2018/2021/11/05/boys-love-demografia-ou-genero/
Anime?
Eu não sou muito de assistir a animes. Gosto mais de ler mangás, mas Banana Fish tem uma boa adaptação em streaming pela Amazon. Vale a pena assistir.
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Edição da Panini Brasil, 2022. Ela condensa os 19 volumes originais em livros com mais conteúdo, por isso tem quase metade do número original.
Sobre a Guerra do Vietnã: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cxr005pz940o
Shoujo é uma demografia de mangás no Japão voltada para meninas.
“Em números absolutos, o Brasil é o país com mais homicídios do planeta“: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2024/07/18/mortes-violentas-caem-mas-brasil-e-o-18o-pais-com-maior-indice-de-letalidade-do-mundo-aponta-anuario-de-seguranca.ghtml
Um dia ideal para peixes-banana, um conto do autor: https://oglobo.globo.com/cultura/um-dia-ideal-para-os-peixes-banana-9962736
Em uma tradução de uma entrevista da própria autora com o músico japonês Gackt, em 1998, é dito que: “Yoshida says that she’s interested in how male readers view the story, because after all, it is a woman’s fantasy. She wonders if it’s hard for them to get into the story. Gackt says that he got really into it though. Yoshida concedes that there are men out there who like the series, but it is still a shoujo manga and the magazine it’s published in is also for girls, so she has never once thought about a male audience as she was drawing it. That’s why she’s curious about how it’s being read by them.” Fonte: https://pekorosu.tumblr.com/post/183193627573
Todos esses capítulos especiais (one-shots) podem ser encontrados no volume 10 da edição brasileira.









Vi o título do email e pensei que você ia falar sobre o conto do Salinger, não lembrava que esse mangá existia.
Como é triste que, ainda hoje, seja dificil pro sistema investir em um história para meninas/mulheres que não seja apenas sobre amor romântico heteronormativo.